Choram lágrimas de dor
os olhos de toda a gente.
Mas chorar em poesia
só o poeta o consegue.
e fá-lo continuamente.
Marilia Gonçalves
Choram lágrimas de dor
os olhos de toda a gente.
Mas chorar em poesia
só o poeta o consegue.
e fá-lo continuamente.
Marilia Gonçalves
Amanheceu
com a mesma caneta
a mesma tinta
o mesmo poeta
com que anoiteceu
nasce a manhã
é o dia
do brilho do sol no céu.
A palavra na magia
de tudo o que aconteceu.
Marilia Gonçalves
Escureceu,
ar da noite,
ou forma que tal escreveu
nela o poeta pinta
a palavra em rio de cor
talvez que nela pressinta
o aprazível aspecto
que se transforma em amor.
Marilia Gonçalves
O sol é um rubi
no céu opalescente
sorri o dia na noite
quente
não é ainda noite
mas não é já o dia.
No oceano imenso
apenas ardentia.
Marilia Gonçalves
Vida alegre sorridente
há pouco ‘inda te sonhei
a pareceres tão distante
no momento do sentido
que sem ver realizei
o conceito concebido
numa pérola de leite.
Marilia Gonçalves
ADEUS
O braço levantado e acenando
lembra asa de pomba
que mansa, muito mansa vai voando.
Há nesse gesto brando
o ai dorido
tanta suavidade
tenta mansidão
que nos faz mais efeito
esse gemido
que o maior trovão.
Marilia Gonçalves
Era verão sentias sede
ofereci-te água da fonte
à beira do olival
que trepava pelo monte
olhaste toda a frescura
que atenuava o calor
em meu olhar a ternura
era outra fonte de ardor
de tal modo te aqueceu
que a água se evaporou
água que ninguém bebeu
a sede a vida durou!
a sede hoje ainda tortura
essa sede tão antiga
do tempo em que tu rapaz
me viste ser rapariga.
Marilia Gonçalves
Vindas de tempo distante
quando sol amanhecia
Gargalhavam as manhãs…
como uma fotografia
ficou esse testemunho
Daquela estrada exilada
onde chiaram carroças
as casas à beira tempo
na história estavam paradas.
Mas a vida prosseguia
nos seus afãs campesinos
na diferença entre estações
nos perfumes desiguais
de cada falta que havia
em cada rosto expressões
da fome que os invadia.
Como eram longos os dias
de trabalho repetido
com arcas de pão vazias
dias de vento e ruído
ou velhas arcas de sal
que guardavam desde o verão
magras petingas que ao pão
num ténue gosto de verão
eram quinhão repartido
por entre sopas fervidas.
Uma vida tão esforçada
na espera da estação quente
por mais uns quilos de vida.
Meu País e minha Gente
Marilia Gonçalves
Mes yeux s’en vont au loin
Et cherchent dans le feuillage
Un abri ou un nuage
Qui ait le dessin de ton cœur
Mes larmes emplissent les airs
Et allongent le paysage
Immensité d’une plage
D’un océan de douleur.
Je te cherche, mais en vain
Mes yeux dessinent tes mains
Dans le contour de la vie
Mais un air venu de loin
A traversé le chemin
Ou l’espoir m’avait suivie.
L’ombre envahit la colline
Déjà le soleil s’enfuit
Ni poèmes, ni ma rime
Me donnent paix, ni oubli.
Et ma quête persévère
Un parfum de primevères
Secoue à nouveau mes sens
Si l’amour n’est que chimères
ô ma vie ! désespère
Et romps pour moi ce silence !
Marilia Gonçalves