O sonho de quem está vivo
ver a aragem nos olhos
a ondular a paisagem
a criar vozes diurnas
ou febris noites de amor.
Elevar ao cimo a vida
à transparência da cor.
Marília Gonçalves
O sonho de quem está vivo
ver a aragem nos olhos
a ondular a paisagem
a criar vozes diurnas
ou febris noites de amor.
Elevar ao cimo a vida
à transparência da cor.
Marília Gonçalves
Parei a olhar a vida
colhi flores de solidão
sementeira preenchida
de tanto ser coração.
No espanto que me ganhava
crescia minha memória...
paisagem que me habitava
em país sem ter história.
Quem sou eu? D’aonde venho
qual o futuro caminho
no tempo com o tamanho
duma mortalha de linho.
Marília Gonçalves
Voltei atrás era tempo
de colheitas e vindima
andei nos braços do vento
e fui encontrar-me acima
do que podia alcançar...
ficam versos nesta rima
em poesia do mar.
Em tudo apenas paisagem
mesmo entre a vontade humana
continuei na viagem
nesta procura que engana
minha dor,
que é a coragem
de erguer-me a chorar na lama.
Marília Gonçalves
Ó meu amor meu amor
ó clara manhã d’estio
ao espraiar a minha dor
nas margens verdes do rio.
Ó murmúrio das águas
risadas irrequietas
adormecem minhas mágoas
meigas trovas de poetas.
Ó manhã calma, harmonia
do meu sonho a despertar
ó vozes da alegria
a viver para o olhar.
Marília Gonçalves
Vem da memória do tempo
o gesto do meu dizer
e cai ao bafo do vento
a certeza do meu ser
vem da distância perdida
o olhar que espanto tem
dentro em mim trago perdida
história que da história vem.
Marília Gonçalves
AO LUAR
Ao luar no início da primavera
Lembro-me de minhas reuniões, meu amigo, com você.Seu sino
A voz jovem tocou Ding-ding-ding, ding-ding-ding
Ele cantou docemente sobre o amor.
Lembrei-me de um salão com uma multidão barulhenta,
Rosto doce com um véu branco. Ding Ding
Seara rubra d’esperança
onde a foice de amanhã
há-de cortar pão futuro
papoilas tuas irmãs
gritam certezas nascidas
nos olhos da madrugada
Marília Gonçalves
A porta bateu? Ou bateram à porta? Quando a porta bate é porque há corrente de ar. E quando batem à porta qual é a ideia corrente? São ladrões. Não de portas. E nem os ladrões batem à porta nem as portas batem nos ladrões. E a porta tem corrente. Mas não corre, porque se corresse a porta não era porta, era corredor. E o corredor nunca fica à porta. Entra sempre.
Ou sai. Mas quando sai, sai a correr. Quando entra, não. Entra só corredor e nós às vezes é que corremos para entrar. E Saímos pela porta que bate antes antes dela bater porque senão pode bater-nos a nós. E ficávamos sem a voz com o susto. Porque se ficássemos com o susto e com a voz não se diria de nós que foi a porta que nos bateu por causa da corrente de ar. Podia dizer-se que o ar nos deu e fomos bater à porta.;
A porta bateu? Ou bateram à porta? A culpa foi do ar que não faltou. Se o ar faltasse não havia corrente e o corredor não saia a correr nem entrava a porta porque lhe faltava o ar.
Assim a culpa é do ar se a porta não bateu nos ladrões que não bateram à porta. Entao porque diabo é que a porta bateu?
Marília Gonçalves
Volto de novo ao caminho
venho trémula dorida
oiço somente baixinho
como um alento de vida
um som cantado e antigo
vindo de longe, tão longe
onde fica o abrigo
da esperança que me não foge
volto a ser como era
com força na voz, na mão
fértil como a primavera
e ardente como o verão.
Marília Gonçalves
A cal escorria-me dos olhos azuis de
tanto céu e transformava-se
em manchas doiradas ao poisar no chão.
O verde dos vinhedos
coloria-me o vestido e mesmo as mãos lembravam
acenos da paisagem.
A terra tisnada num reflexo de tempo, de sol,
abria-se à procura de ar
ou de água que mais abaixo murmurava suave.
Ribeiro, não,não era.
Antes uma fita ondulante e musical a refrescar a tarde,
rasgada apenas pelo som das cigarras. Pássaros não os havia
àquela hora de calor. Perto da pequena nascente
o zumbido atordoante
das abelhas, numa reminiscência de mel.
Foi há muitos anos, tão longe daqui. Quase duvido ter sido eu
a presenciar tal imagem da vida.
Não uso vestido rodado nem rodopio a cantar,
mas sei que dentro de mim existe ainda,
embora não saiba bem onde,
essa que nos dias meninos olhou e viu.
Marília Gonçalves