Em tempos fui
a branca borboleta
no meu bibe de renda...
agora em meus olhos trago morte.
O meu vestido negro
a cantar minha arte
procura a tua mão.
Marilia Gonçalves
Em tempos fui
a branca borboleta
no meu bibe de renda...
agora em meus olhos trago morte.
O meu vestido negro
a cantar minha arte
procura a tua mão.
Marilia Gonçalves
Também pra mim aos poucos se aproxima
o fim da minha dor
eu, morri uma vez, era menina
porquê agora não se sou maior?
Agora há justiça no combate
temos armas iguais
frente à morte
eu sinto-me a mais forte.
Eu, semeei amor e ela vendavais.
Marilia Gonçalves
Houve evolução na marionete
primeiro pano e cordão
por trás havia o homem
é evidente sem contradição.
Fantoche e a mão.
Mais requintada, toda em movimento
articulada
surgiu a marionete
sucesso de invenção.
Hoje as coisas estão mudadas
Agora a marionete é electrónica
é uma perfeição
tudo sabe fazer essa perícia
da programação.
a marionete de hoje é uma delícia:
um robot sem expressão.
Na continuidade da malícia
talvez o homem chegue
a ser manipulado por botão.
Marilia Gonçalves
Há nos olhos do poeta
o não sei quê de magia
com o misto de loucura.
Assim nasce dia a dia
o poema que alivia
ou que dá voz à ternura.
Marilia Gonçalves
Dizer-te que te amo
ó terra ó céus ó infinito
não há espaço onde caiba
dimensão do meu grito
uma estrela implodiu
há tanto que ali estava
a iluminar o escuro
rendilhado de tons
a colorir a vida
mas quando em plena luz
ouviu meu grito
desfez-se em pó
a fecundar quanto tenho escrito.
Marília Gonçalves
Choram lágrimas de dor
os olhos de toda a gente.
Mas chorar em poesia
só o poeta o consegue.
e fá-lo continuamente.
Marilia Gonçalves
Amanheceu
com a mesma caneta
a mesma tinta
o mesmo poeta
com que anoiteceu
nasce a manhã
é o dia
do brilho do sol no céu.
A palavra na magia
de tudo o que aconteceu.
Marilia Gonçalves
Escureceu,
ar da noite,
ou forma que tal escreveu
nela o poeta pinta
a palavra em rio de cor
talvez que nela pressinta
o aprazível aspecto
que se transforma em amor.
Marilia Gonçalves
O sol é um rubi
no céu opalescente
sorri o dia na noite
quente
não é ainda noite
mas não é já o dia.
No oceano imenso
apenas ardentia.
Marilia Gonçalves
Vida alegre sorridente
há pouco ‘inda te sonhei
a pareceres tão distante
no momento do sentido
que sem ver realizei
o conceito concebido
numa pérola de leite.
Marilia Gonçalves
ADEUS
O braço levantado e acenando
lembra asa de pomba
que mansa, muito mansa vai voando.
Há nesse gesto brando
o ai dorido
tanta suavidade
tenta mansidão
que nos faz mais efeito
esse gemido
que o maior trovão.
Marilia Gonçalves