Ó doce flor da minha infância
minha rosa de luz flor de jasmim
meu sorriso a cantar-te na distância
fonte de versos a brotar em mim.
Meu lindo mês de junho tão florido
com aves a cantar ribeiro a rir
amanhecer no mar areias d’oiro
das águas a fulgir.
Horas a saltitar ao sol ardente
,nesse perfume que só era teu
quando o teu riso abria de repente
eco menino do meu.
fronte apoiada em teu regaço
em terno devaneio eras meu ninho
naquele invisível laço
as vozes riam baixinho
nossa janela ao poente
no rosa loiro da luz
lembrava o dia nascente
que a mais alegria induz
Marilia Gonçalves
Estendi as mãos ao adeus
não torno a ver meu amigo
à sombra dos olhos seus
tive meu sonho e abrigo.
Voei por estranhas passagens
todas de gelo tecidas
multiplicavam imagens
o espelho de nossas vidas.
Olhos verdes, escuro verde
ah meus olhos de encantar
os teus olhos feiticeiros
não os torno a encontrar
se eram ou não verdadeiros
ninguém pode desvendar!
Meu amor, porque te quis,
meu amigo ou ilusão
tristeza se vida diz
encontrar só negação.
Na dor constante aprendiz
gelou o meu coração.
Marília Gonçalves
Vou pela janela do tempo
procurar o vento norte
saber em que estranha plaga
me deixou o vago olhar
se o meu dia era uma ave
que me deixou suas penas
desfeitas em açucenas
a arderem sobre o mar.
Sou intempérie da vida
ou lamento a inventar
ou menina acontecida
com o bibe a esvoaçar
sou além do tredo dia
a alegre cotovia
que inunda o campo de voz
ou sou febre em poesia
a gritar dentro de nós.
Marília Gonçalves
Desenho a ideia na palavra
desenho a palavra no papel
luz e sombra que desbrava
o ritmo da pele.
Marília Gonçalves
O mar na areia soava
quando a menina o olhou...
Não sei o som que entoava
quando a menina cantou.
O mar na areia rolava
quando a menina cantou
não sei que canção soava
no silêncio que a escutou.
O mar na areia espumava
quando a menina calou.
Não sei que som se ocultava
na voz do mar que rolou.
O mar na areia quebrava
menino sonho voou...
Sei que nunca mais voltava
à asa que se afundou.
Marília Gonçalves