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O BLOGUE UNIVERSAL E INTERNACIONALISTA


A praça é do povo. Como o céu é do condor. É o antro onde a liberdade. Cria águias em seu calor! ...

A palavra! Vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.

Castro Alves
Jornal de Poesia

Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes? / Em que mundo, em que estrelas tu te escondes / Embuçado nos céus? /Há dois mil anos te mandei meu grito / Que, embalde, desde então corre o infinito... / Onde estás, Senhor Deus?

Castro Alves


MINHA LEI E MINHA REGRA HUMANA: AS PRIORIDADES.

Marília Gonçalves

Grandes almas sempre encontraram forte oposição de mentes medíocres.
Albert Einstein

Perguntas Com Resposta à Espera

Portugal ChamaS e Não Ouvem a Urgência de Teu Grito? Portugal em que http://www.blogger.com/img/gl.bold.gifinevitavelmente se incluem os que votando certo, viram resvalar de suas mãos a luz em que acreditavam; A LUTA CONTINUA )
Quem Acode à Tragédia de Portugal Vendido ao Poder dos Financeiros?! Quem Senão TU, POVO DE PORTUGAL?! Do Mundo inteiro a irmã de Portugal a filha. Marília Gonçalves a todos os falsos saudosistas lamurientos, que dizem (porque nem sabem do que falam) apreciar salazar como grande vulto,quero apenas a esses,dizer-lhes que não prestam! porque erguem seus sonhos sobre alicerces de sofrimento, do Povo a que pertencem e que tanto sofreu às mãos desse ditador!sobre o sofrimento duma geração de jovens ( a que vocês graças ao 25 de Abril escaparam)enviada para a guerra, tropeçar no horror e esbarrar na morte, sua e de outros a cada passo! sobre o sofrimento enfim de Portugal, que é vossa história, espoliado de bens e de gentes, tendo de fugir para terras de outros para poder sobreviver, enquanto Portugal ao abandono,via secar-se-lhe o pobre chão, sem braços que o dignificassem! Tudo isso foi salazar, servido por seus esbirros e por uma corte de bufos e de vendidos, que não olhavam a meios,para atingir seus malévolos fins!Construam se dentro de vós há sangue de gente, vossos sonhos, com base na realidade e não apoiando-os sobre mitos apodrecidos, no sangue de inocentes!!! Marília Gonçalves (pois é! feras não têm maiúscula!!!)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Eluard y La Libertad

Caxias




Carlos Domingos, Portugal: sobre Eluard y La Libertad

UMA HISTÓRIA VERDADEIRA

1

Em 1942, durante a ocupação da França pelos nazis, o poeta Paul Éluard escreveu um extraordinário poema, intitulado «Liberté», que ficou na História como um dos símbolos da Resistência.

Esse poema foi levado para Inglaterra por um pintor brasileiro, Cícero Dias. Em 1943, traduzido em várias línguas, o poema foi lançado, como um panfleto, por aviões britânicos sobre a França e outros países da Europa.

Por ter realizado o notável feito de ter passado o poema, clandestinamente, para fora do país, permitindo a sua difusão, Cícero Dias foi condecorado com o Ordem Nacional do Mérito pelo governo francês, mais de cinquenta anos depois, em 1998.

2

Alguns anos depois da derrota do nazismo, frequentava eu o sétimo ano do curso de língua francesa no Liceu Francês Charlles Lepierre, quando, num autêntico desafio à Censura do fascismo salazarista, a Embaixada francesa patrocinou a realização dum recital de poesia francesa da Resistência, que incluía um filme de curta-metragem baseado no poema de Louis Aragon «La Rose et le Réséda», o qual apelava à união entre crentes (la rose) e não crentes (le réséda) contra a ocupação nazista:

«Celui qui croyait au Ciel,

celui qui n’y croyait pas,

tous les deux aimaient la belle

prisionière des soldats.»

A minha participação nesse recital constou da declamação do poema de Paul Éluard «Liberté», pelo que fui muito felicitado pelos representantes da Embaixada que se encontravam presentes. Nunca me esquecerei que o meu professor de francês tinha sido, ele próprio, um resistente.

3

O episódio referente ao pintor brasileiro Cícero Dias que transportou o poema de Paul Éluard para Inglaterra e o posterior reconhecimento do governo francês por essa façanha foram-me dados a conhecer por uma folha informativa datada de 28 de Outubro de 2002, comemorativa do centenário do nascimento do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, folha essa que só me chegou às mãos há poucos dias.

Foi também por essa mesma folha que tomei agora conhecimento da tradução do poema «Liberté» para português pela dupla de poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, apesar de que essa tradução já fora feita nos anos 40.

A referida folha informativa foi, creio eu, da responsabilidade de Carlos Machado.

4

Viremos agora a página.

Em 1972 fui preso pela polícia política criada por Salazar, a famigerada PIDE. Barbaramente torturado, incluindo com a terrível “tortura do sono” durante a qual fui impedido de dormir durante 13 dias seguidos, encerraram-me depois na prisão de Caxias, onde permaneci os três primeiros meses em regime de rigoroso isolamento.

Mesmo assim, durante esse período escrevi vários poemas e um relatório sobre os pormenores da minha prisão e o que sofri depois. Todos esses escritos fi-los passar clandestinamente (não podia ser doutra forma) para fora da prisão, apesar da apertada e rigorosa vigilância dos serviços prisionais, que chegavam a radiografar as roupas que entravam e saíam, desfaziam bolos que recebíamos das famílias, picavam as pastas de dentes, desmanchavam os maços de tabaco, despiam-nos completamente para revistar as nossas roupas ao pormenor antes de comparecermos perante os nossos advogados ou familiares (e, mesmo assim, as visitas realizavam-se na presença de um guarda e de um agente da PIDE).

A primeira mensagem que consegui fazer passar foi um pequeno poema (era a primeira experiência):

«Um preso político é como uma península:

rodeado de lobos por todos os lados

menos por um – a certeza

que o liga aos companheiros.»

5

Acabado o período do isolamento, instalaram-me numa sala onde fiquei com mais quatro companheiros. Em conjunto, organizámos a nossa vida, o nosso estudo, o nosso trabalho politico-cultural, as nossas diversões e, até, as nossas reacções às provocações dos carcereiros.

Em Abril de 1973, a união de todos os democratas e anti-fascistas conseguiu realizar em Aveiro, durante cinco dias, o 3º Congresso da Oposição Democrática.

Com a colaboração de dois dos meus companheiros de prisão, escrevi uma comunicação ao citado Congresso intitulada «A Repressão Fascista e a Situação dos Presos Políticos em Caxias». Escrita com uma letra muitíssimo minúscula, o dito trabalho ocupou quinze mortalhas para cigarro. Poucos imaginam as dificuldades que foi necessário vencer para as fazer sair de dentro da prisão.

Depois de ter sido tudo dactilografado, havia ainda que transportar o trabalho para Aveiro, o que foi feito por uma jovem anti-fascista, noiva de um dos meus companheiros de prisão, acabando por ser ela a ler a comunicação ao Congresso, ante uma extraordinária ovação da assistência. Tudo isto implicou um enorme risco, não só para quem, lá dentro, elaborou o documento, mas também para quem o transportou e o leu na tribuna do Congresso.

Essa intervenção está publicada nas «Teses do 3º Congresso da Oposição Democrática», em 8 volumes, página 63 da secção Organização do Estado e Direitos do Homem, Edições Seara Nova, Fevereiro de 1974.

Como na autoria da comunicação figurava um Grupo de presos actualmente em Caxias (e é assim que se encontra publicado nas «Teses»), a PIDE não teve qualquer dificuldade em me associar ao evento, pelo que passei a sofrer maior vigilância e repressão.

Finalmente, em Maio de 1973, fui transferido para uma prisão política de alta segurança, a Cadeia do Forte de Peniche. Aí estive na companhia de altos dirigentes políticos como António Dias Lourenço, José Magro, Ângelo Veloso e Dinis Miranda, o dirigente sindical Daniel Cabrita, o romancista Mário de Carvalho, o dirigente angolano Garcia Neto (mais tarde assassinado pelos terroristas do grupo de Nito Alves) e outros cujo nome não me ocorre.

Em Setembro de 1973 chegou-nos a notícia do golpe fascista de Pinochet no Chile, que nos provocou um estado de espírito de ainda maior revolta.

Foi apanhado por esse estado de espírito que decidi traduzir para português o poema de Paul Éluard «Liberté», que eu tinha aprendido e recitado em jovem. Outra luta foi fazer passar a tradução para o exterior, como se deve calcular.

Fui libertado quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974. Com a euforia da libertação e do trabalho gigantesco que havia para realizar, perdi o rasto à tradução do poema de Paul Éluard.

Só há dias, ao travar conhecimento com a tradução realizada pelos dois poetas brasileiros, é que me lembrei de que tinha havido uma tradução feita por mim. E, então, resolvi procurá-la, mas sem êxito.

Até que… Foi ontem. Foi ontem que me ocorreu a existência duns velhos papéis encafuados numa velha caixa de madeira.

Ao abrir a caixa desenterrei tanta coisa! Velhos poemas da juventude que o meu pai tinha conservado religiosamente… E lá estava. Lá estava a tradução.

Algumas palavras já não estavam perceptíveis. Mas eu coloquei no seu lugar as que me pareceram fazer sentido e que se adaptavam ao ritmo. Não devo ter falhado muito.

6

Escreve Carlos Machado, a propósito da tradução do poema «Liberté» executada por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que «…existe uma profusão de traduções deste poema. Em minha opinião, esta é, de longe, a melhor.» Claro que C. Machado se refere apenas às traduções que ele conhece.

Ao confrontar, por exemplo, a minha tradução com a dos dois grandes poetas brasileiros, alguns dos meus amigos mais credenciados e insuspeitos não conseguiram fazer uma escolha do ponto de vista da qualidade literária. Notaram-lhes, entretanto, algumas semelhanças e algumas diferenças, sendo notórias as duas que se seguem:

1. Ambas as traduções seguem a métrica utilizada pelo autor do poema, isto é, a redondilha maior e mantêm-se fiéis a ela até o fim.

2. A tradução do duo de poetas denota um ambiente mais frio, de exclusiva preocupação literária, enquanto a minha tradução sofre do defeito de ter sido escrita num contexto prisional.

Pois bem. Por mim, não considero esta segunda parte um defeito. Entre mim e o poeta Paul Éluard existe um traço comum: somos ambos resistentes anti-fascistas. Tanto o seu poema como a minha tradução reflectem o ambiente de tensão em que se inseriam. Que eu saiba, tanto Drummond como Bandeira nunca estiveram presos nem participaram activamente na Resistência. As suas vivências foram apenas de cariz humano e intelectual.

Para além disso, tenho alguns (pequenos) reparos a fazer.

Vejamos. A minha escolha em traduzir “Sur” por “Sobre não se limita a uma prática de literalismo. A nossa preposição “em” tanto pode traduzir o francês “sur” como “dans”. Écrire sur mes cahiers é diferente de Écrire dans mes cahiers. E, no meu ponto de vista, o “Sobre” dá mais força, mais acutilância à expressão.

Há, por outro lado, alguns pontos em que eu estou em nítido desacordo com a tradução do duo Drummond/Bandeira.

Na 2ª estrofe, a expressão pages blanches significa páginas em branco (podem até ser amarelas) e não páginas brancas.

Traduzir dorées por redouradas é nitidamente para cumprir a métrica. E armes não são armaduras. É muito diferente (3ª estrofe).

A palavra jungles não existe em português. Trata-se possivelmente de um calão brasileiro. Porém, num poema deste tipo, para ser lido universalmente, devem ser evitados os regionalismos. A tradução de jungle deve ser selva ou floresta. Também l’écho de mon enfance não é o céu da minha infância, mas aqui pode tratar-se de uma gralha tipográfica, uma vez que a métrica não ficou certa (4ª estrofe).

Journée não é alvorada. Alvorada é o nascer do dia, enquanto journée é a totalidade do tempo que preenche o dia (5ª estrofe).

Lune vivante é lua viva e não lua vivendo (?!) (6ª estrofe).

Asas dos passarinhos é muito redutor, pois deixa de fora os grandes pássaros, como águias, falcões, etc. O poeta diz simplesmente des oiseaux, isto é, pássaros. Além de que o diminutivo é demasiado terno e carinhoso para um poema que se quer com raiva (7ª estrofe).

Sur la mer é o que diz o poeta. Água do mar pode-se ir buscar à praia num balde. O poeta fala no mar como um todo, como uma realidade. Ele não escreve sobre a água do balde, mas sim sobre o mar. E, logo a seguir, ele fala em bateaux (barcos) e não em navios (navires). Também serranias não é o mesmo que montagne. Montanha é uma realidade unificada, mais personalizada e, por isso, mais forte (8ªestrofe).

Até. É uma palavra metida a martelo para completar a métrica (9ª estrofe).

O poeta diz les cloches des couleurs, não diz que são sete cores (10ª estrofe).

Traduzir tremplin por trampolim é traduzir à letra. Tremplin tanto pode significar trampolim como degrau que dá acesso, diferente de degrau da escada que se diz marche. Em português dizemos o degrau da porta (15ª estrofe).

Les lèvres attentives não significa que estejam atentos, mas sim que estão à espera. Attentif, de attendre (esperar, estar à espera) (17ª estrofe).

Les marches de la mort são os degraus da morte e não as escadas. Parte-se do princípio de que a morte terá uma escada (escalier) a qual terá muitos degraus (marches) (19ª estrofe).

E pronto. Quanto ao final, eu optei por não usar a palavra chamar. Em português chamar pode ter vários sentidos. Pode corresponder ao francês nommer, mas também pode significar appeler. No poema, Éluard emprega nommer e, para evitar interpretações dúbias eu decidi-me por invocar.

Finalmente, apesar de lhe apontar alguns senões (diz-se que não há bela sem senão), eu não me atrevo a dizer que a tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira não seja uma bela tradução.

Quanto à minha tradução, eu não a classifico como melhor, apenas reivindico a qualidade de diferente. Ela pretende ser apenas uma tradução feita por um resistente anti-fascista que estava preso precisamente numa altura em que a Democracia estava a ser barbaramente esquartejada no Chile. Ela está, pois, imbuída daquela raiva e espírito de resistência, reflexo das condições em que foi concebida.

7

A propósito da proeza do pintor pernambucano Cícero Dias de ter transportado o poema de Éluard para Inglaterra e, com isto, ter ganho o reconhecimento, embora tardio, do governo francês, a ponto de lhe ter sido conferida uma medalha, devemos admitir que, não contestando de forma alguma o seu notável mérito, a sua acção não pode ser considerada propriamente um feito heróico.

E isto porquê?

Primeiro, porque não é muito difícil esconder um pequeno papel dentro da roupa ou na bagagem. Segundo, porque bastaria ter deixado figurar como título aquele que o poeta lhe tinha atribuído inicialmente com carácter provisório: Une seule pensée. Complementarmente, ser-lhe-ia retirado o verso final constituído pela palavra Liberté. Estes procedimentos dariam ao poema um ar inofensivo, capaz de iludir qualquer vigilância mais severa. Uma vez em Inglaterra, seria restituído ao poema o seu aspecto original.

Tudo isto é claro como água.

O que já não foi tão fácil foi fazer sair uma tradução do poema «Liberdade» para o exterior duma prisão política de alta segurança como era a Cadeia do Forte de Peniche. O mesmo se pode dizer em relação às centenas de mensagens que saíram e entraram em todas as prisões políticas do fascismo. Isso sim, foram actos de heroísmo praticados, durante os 48 longos anos de ditadura pelos presos políticos portugueses, os quais, até à data, ainda não foram publicamente homenageados pelos representantes da nossa Democracia, para a conquista da qual eles tão duramente contribuíram.

15-9-2006

Carlos Domingos

O FIM DO FASCISMO EM PORTUGAL




Revoluçao do 25 de Abril de 1974



prisão política de Caxias




Carlos Domingos, Portugal: sobre Eluard y La Libertad

UMA HISTÓRIA VERDADEIRA

1

Em 1942, durante a ocupação da França pelos nazis, o poeta Paul Éluard escreveu um extraordinário poema, intitulado «Liberté», que ficou na História como um dos símbolos da Resistência.

Esse poema foi levado para Inglaterra por um pintor brasileiro, Cícero Dias. Em 1943, traduzido em várias línguas, o poema foi lançado, como um panfleto, por aviões britânicos sobre a França e outros países da Europa.

Por ter realizado o notável feito de ter passado o poema, clandestinamente, para fora do país, permitindo a sua difusão, Cícero Dias foi condecorado com o Ordem Nacional do Mérito pelo governo francês, mais de cinquenta anos depois, em 1998.

2

Alguns anos depois da derrota do nazismo, frequentava eu o sétimo ano do curso de língua francesa no Liceu Francês Charlles Lepierre, quando, num autêntico desafio à Censura do fascismo salazarista, a Embaixada francesa patrocinou a realização dum recital de poesia francesa da Resistência, que incluía um filme de curta-metragem baseado no poema de Louis Aragon «La Rose et le Réséda», o qual apelava à união entre crentes (la rose) e não crentes (le réséda) contra a ocupação nazista:

«Celui qui croyait au Ciel,

celui qui n’y croyait pas,

tous les deux aimaient la belle

prisionière des soldats.»

A minha participação nesse recital constou da declamação do poema de Paul Éluard «Liberté», pelo que fui muito felicitado pelos representantes da Embaixada que se encontravam presentes. Nunca me esquecerei que o meu professor de francês tinha sido, ele próprio, um resistente.

3

O episódio referente ao pintor brasileiro Cícero Dias que transportou o poema de Paul Éluard para Inglaterra e o posterior reconhecimento do governo francês por essa façanha foram-me dados a conhecer por uma folha informativa datada de 28 de Outubro de 2002, comemorativa do centenário do nascimento do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, folha essa que só me chegou às mãos há poucos dias.

Foi também por essa mesma folha que tomei agora conhecimento da tradução do poema «Liberté» para português pela dupla de poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, apesar de que essa tradução já fora feita nos anos 40.

A referida folha informativa foi, creio eu, da responsabilidade de Carlos Machado.

4

Viremos agora a página.

Em 1972 fui preso pela polícia política criada por Salazar, a famigerada PIDE. Barbaramente torturado, incluindo com a terrível “tortura do sono” durante a qual fui impedido de dormir durante 13 dias seguidos, encerraram-me depois na prisão de Caxias, onde permaneci os três primeiros meses em regime de rigoroso isolamento.

Mesmo assim, durante esse período escrevi vários poemas e um relatório sobre os pormenores da minha prisão e o que sofri depois. Todos esses escritos fi-los passar clandestinamente (não podia ser doutra forma) para fora da prisão, apesar da apertada e rigorosa vigilância dos serviços prisionais, que chegavam a radiografar as roupas que entravam e saíam, desfaziam bolos que recebíamos das famílias, picavam as pastas de dentes, desmanchavam os maços de tabaco, despiam-nos completamente para revistar as nossas roupas ao pormenor antes de comparecermos perante os nossos advogados ou familiares (e, mesmo assim, as visitas realizavam-se na presença de um guarda e de um agente da PIDE).

A primeira mensagem que consegui fazer passar foi um pequeno poema (era a primeira experiência):

«Um preso político é como uma península:

rodeado de lobos por todos os lados

menos por um – a certeza

que o liga aos companheiros.»

5

Acabado o período do isolamento, instalaram-me numa sala onde fiquei com mais quatro companheiros. Em conjunto, organizámos a nossa vida, o nosso estudo, o nosso trabalho politico-cultural, as nossas diversões e, até, as nossas reacções às provocações dos carcereiros.

Em Abril de 1973, a união de todos os democratas e anti-fascistas conseguiu realizar em Aveiro, durante cinco dias, o 3º Congresso da Oposição Democrática.

Com a colaboração de dois dos meus companheiros de prisão, escrevi uma comunicação ao citado Congresso intitulada «A Repressão Fascista e a Situação dos Presos Políticos em Caxias». Escrita com uma letra muitíssimo minúscula, o dito trabalho ocupou quinze mortalhas para cigarro. Poucos imaginam as dificuldades que foi necessário vencer para as fazer sair de dentro da prisão.

Depois de ter sido tudo dactilografado, havia ainda que transportar o trabalho para Aveiro, o que foi feito por uma jovem anti-fascista, noiva de um dos meus companheiros de prisão, acabando por ser ela a ler a comunicação ao Congresso, ante uma extraordinária ovação da assistência. Tudo isto implicou um enorme risco, não só para quem, lá dentro, elaborou o documento, mas também para quem o transportou e o leu na tribuna do Congresso.

Essa intervenção está publicada nas «Teses do 3º Congresso da Oposição Democrática», em 8 volumes, página 63 da secção Organização do Estado e Direitos do Homem, Edições Seara Nova, Fevereiro de 1974.

Como na autoria da comunicação figurava um Grupo de presos actualmente em Caxias (e é assim que se encontra publicado nas «Teses»), a PIDE não teve qualquer dificuldade em me associar ao evento, pelo que passei a sofrer maior vigilância e repressão.

Finalmente, em Maio de 1973, fui transferido para uma prisão política de alta segurança, a Cadeia do Forte de Peniche. Aí estive na companhia de altos dirigentes políticos como António Dias Lourenço, José Magro, Ângelo Veloso e Dinis Miranda, o dirigente sindical Daniel Cabrita, o romancista Mário de Carvalho, o dirigente angolano Garcia Neto (mais tarde assassinado pelos terroristas do grupo de Nito Alves) e outros cujo nome não me ocorre.

Em Setembro de 1973 chegou-nos a notícia do golpe fascista de Pinochet no Chile, que nos provocou um estado de espírito de ainda maior revolta.

Foi apanhado por esse estado de espírito que decidi traduzir para português o poema de Paul Éluard «Liberté», que eu tinha aprendido e recitado em jovem. Outra luta foi fazer passar a tradução para o exterior, como se deve calcular.

Fui libertado quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974. Com a euforia da libertação e do trabalho gigantesco que havia para realizar, perdi o rasto à tradução do poema de Paul Éluard.

Só há dias, ao travar conhecimento com a tradução realizada pelos dois poetas brasileiros, é que me lembrei de que tinha havido uma tradução feita por mim. E, então, resolvi procurá-la, mas sem êxito.

Até que… Foi ontem. Foi ontem que me ocorreu a existência duns velhos papéis encafuados numa velha caixa de madeira.

Ao abrir a caixa desenterrei tanta coisa! Velhos poemas da juventude que o meu pai tinha conservado religiosamente… E lá estava. Lá estava a tradução.

Algumas palavras já não estavam perceptíveis. Mas eu coloquei no seu lugar as que me pareceram fazer sentido e que se adaptavam ao ritmo. Não devo ter falhado muito.

6

Escreve Carlos Machado, a propósito da tradução do poema «Liberté» executada por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, que «…existe uma profusão de traduções deste poema. Em minha opinião, esta é, de longe, a melhor.» Claro que C. Machado se refere apenas às traduções que ele conhece.

Ao confrontar, por exemplo, a minha tradução com a dos dois grandes poetas brasileiros, alguns dos meus amigos mais credenciados e insuspeitos não conseguiram fazer uma escolha do ponto de vista da qualidade literária. Notaram-lhes, entretanto, algumas semelhanças e algumas diferenças, sendo notórias as duas que se seguem:

1. Ambas as traduções seguem a métrica utilizada pelo autor do poema, isto é, a redondilha maior e mantêm-se fiéis a ela até o fim.

2. A tradução do duo de poetas denota um ambiente mais frio, de exclusiva preocupação literária, enquanto a minha tradução sofre do defeito de ter sido escrita num contexto prisional.

Pois bem. Por mim, não considero esta segunda parte um defeito. Entre mim e o poeta Paul Éluard existe um traço comum: somos ambos resistentes anti-fascistas. Tanto o seu poema como a minha tradução reflectem o ambiente de tensão em que se inseriam. Que eu saiba, tanto Drummond como Bandeira nunca estiveram presos nem participaram activamente na Resistência. As suas vivências foram apenas de cariz humano e intelectual.

Para além disso, tenho alguns (pequenos) reparos a fazer.

Vejamos. A minha escolha em traduzir “Sur” por “Sobre não se limita a uma prática de literalismo. A nossa preposição “em” tanto pode traduzir o francês “sur” como “dans”. Écrire sur mes cahiers é diferente de Écrire dans mes cahiers. E, no meu ponto de vista, o “Sobre” dá mais força, mais acutilância à expressão.

Há, por outro lado, alguns pontos em que eu estou em nítido desacordo com a tradução do duo Drummond/Bandeira.

Na 2ª estrofe, a expressão pages blanches significa páginas em branco (podem até ser amarelas) e não páginas brancas.

Traduzir dorées por redouradas é nitidamente para cumprir a métrica. E armes não são armaduras. É muito diferente (3ª estrofe).

A palavra jungles não existe em português. Trata-se possivelmente de um calão brasileiro. Porém, num poema deste tipo, para ser lido universalmente, devem ser evitados os regionalismos. A tradução de jungle deve ser selva ou floresta. Também l’écho de mon enfance não é o céu da minha infância, mas aqui pode tratar-se de uma gralha tipográfica, uma vez que a métrica não ficou certa (4ª estrofe).

Journée não é alvorada. Alvorada é o nascer do dia, enquanto journée é a totalidade do tempo que preenche o dia (5ª estrofe).

Lune vivante é lua viva e não lua vivendo (?!) (6ª estrofe).

Asas dos passarinhos é muito redutor, pois deixa de fora os grandes pássaros, como águias, falcões, etc. O poeta diz simplesmente des oiseaux, isto é, pássaros. Além de que o diminutivo é demasiado terno e carinhoso para um poema que se quer com raiva (7ª estrofe).

Sur la mer é o que diz o poeta. Água do mar pode-se ir buscar à praia num balde. O poeta fala no mar como um todo, como uma realidade. Ele não escreve sobre a água do balde, mas sim sobre o mar. E, logo a seguir, ele fala em bateaux (barcos) e não em navios (navires). Também serranias não é o mesmo que montagne. Montanha é uma realidade unificada, mais personalizada e, por isso, mais forte (8ªestrofe).

Até. É uma palavra metida a martelo para completar a métrica (9ª estrofe).

O poeta diz les cloches des couleurs, não diz que são sete cores (10ª estrofe).

Traduzir tremplin por trampolim é traduzir à letra. Tremplin tanto pode significar trampolim como degrau que dá acesso, diferente de degrau da escada que se diz marche. Em português dizemos o degrau da porta (15ª estrofe).

Les lèvres attentives não significa que estejam atentos, mas sim que estão à espera. Attentif, de attendre (esperar, estar à espera) (17ª estrofe).

Les marches de la mort são os degraus da morte e não as escadas. Parte-se do princípio de que a morte terá uma escada (escalier) a qual terá muitos degraus (marches) (19ª estrofe).

E pronto. Quanto ao final, eu optei por não usar a palavra chamar. Em português chamar pode ter vários sentidos. Pode corresponder ao francês nommer, mas também pode significar appeler. No poema, Éluard emprega nommer e, para evitar interpretações dúbias eu decidi-me por invocar.

Finalmente, apesar de lhe apontar alguns senões (diz-se que não há bela sem senão), eu não me atrevo a dizer que a tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira não seja uma bela tradução.

Quanto à minha tradução, eu não a classifico como melhor, apenas reivindico a qualidade de diferente. Ela pretende ser apenas uma tradução feita por um resistente anti-fascista que estava preso precisamente numa altura em que a Democracia estava a ser barbaramente esquartejada no Chile. Ela está, pois, imbuída daquela raiva e espírito de resistência, reflexo das condições em que foi concebida.

7

A propósito da proeza do pintor pernambucano Cícero Dias de ter transportado o poema de Éluard para Inglaterra e, com isto, ter ganho o reconhecimento, embora tardio, do governo francês, a ponto de lhe ter sido conferida uma medalha, devemos admitir que, não contestando de forma alguma o seu notável mérito, a sua acção não pode ser considerada propriamente um feito heróico.

E isto porquê?

Primeiro, porque não é muito difícil esconder um pequeno papel dentro da roupa ou na bagagem. Segundo, porque bastaria ter deixado figurar como título aquele que o poeta lhe tinha atribuído inicialmente com carácter provisório: Une seule pensée. Complementarmente, ser-lhe-ia retirado o verso final constituído pela palavra Liberté. Estes procedimentos dariam ao poema um ar inofensivo, capaz de iludir qualquer vigilância mais severa. Uma vez em Inglaterra, seria restituído ao poema o seu aspecto original.

Tudo isto é claro como água.

O que já não foi tão fácil foi fazer sair uma tradução do poema «Liberdade» para o exterior duma prisão política de alta segurança como era a Cadeia do Forte de Peniche. O mesmo se pode dizer em relação às centenas de mensagens que saíram e entraram em todas as prisões políticas do fascismo. Isso sim, foram actos de heroísmo praticados, durante os 48 longos anos de ditadura pelos presos políticos portugueses, os quais, até à data, ainda não foram publicamente homenageados pelos representantes da nossa Democracia, para a conquista da qual eles tão duramente contribuíram.

15-9-2006

Carlos Domingos


No 13º Dia da Tortura do Sono



NO 13º DIA DA TORTURA DO SONO


Esta manhã o Sol,

vermelho de vergonha,
veio espreitar se ainda vivo.



Sinto-me num barco que se afunda.
Só eu flutuo
à deriva num mar encapelado,
as tábuas unidas por um fio inquebrável,
jangada varrida por chicotadas de tormenta
com agressões de rochedos a doer nos ossos.


Desço ao fundo de mim. Ao menos
aqui encontro segurança.
À minha volta os monstros investem
mas só por fora a carne sangra.


Recosto-me
num monte de recordações
que as vertigens não deixam ordenar.
Ah! Bem desejam os monstros apreendê-las
e por isso espreitam desesperadamente
através dos meus olhos.
Mas, entretanto, eu desliguei a lâmpada
que dava luz cá dentro.


Estou suspenso de mim. Acho que vou cair.
Mas não. As paredes é que rodopiam
e abrem-se agora à passagem de figuras brancas,
monstros de cal, corpos recortados.
Quem são, quem são? Ah, não apertem
pois quero respirar.
Que ouvidos são aqueles pendurados no tecto?
Como conseguiram entrar na minha cabeça
e escavar, escavar... ?
Rio-me, pois nada encontrarão
a não ser uma ampulheta marcando o tempo,
cada vez mais difuso.
Rio-me, sim, com um riso de sangue em brasa.



Eles tentam isolar-me cortando as amarras,
quebrando as antenas,
destruindo a bússola.
Mas eu continuo a orientar-me
rompendo o nevoeiro do seu ódio.


O meu pensamento é uma escada em caracol
a que faltam degraus.

Ontem à noite escorreguei
e quase mergulhei no sono universal.
Mas hoje, com o render da noite,
senti-me vivo e gostei.


Amo a vida, o amor, a liberdade.
E é por isso que morro pela vida,
odeio pelo amor
e pela liberdade estou cativo.


Soltam à minha volta palavras-mastins
que ladram e abocanham:
"Diz!", "Declara!", "Fala e vais dormir!"
(sons para mim sem nexo).
Ó monstros pobres diabos!
Nem sequer se apercebem que não podem
vergar esta barra
dura como a vontade.


Deixei-me cair em indiferença de algodão.
Desisti de fazer o puzzle que trago nos olhos.
Sons e imagens, podeis vogar, sois livres,
podeis confundir-vos, bailar.
Gargalhadas na parede, ameaças,
olhos a passear pelo chão,
bichos repelentes, répteis,
hálito podre de polícias suados,
mãos na garganta, lápis
a rolar sobre a mesa como um bulldozer ,
tudo isto está prensado
nesta muralha de ódio à minha volta.



Dentro de mim está a vida.
Dentro de mim trago os companheiros que se agitam,
dentro de mim trago os povos que fervilham,
povos que recusam a vala comum
e reconstroem o Sol.
Dentro de mim está o amor
que se transmite em ondas de confiança.
Dentro de mim
há um carregamento de certezas
implacáveis.


É por isso que o meu sorriso
é uma arma de agressão
que transforma o ódio em desespero.
Dentro de mim, bem no fundo de mim,
é que está a passagem para a liberdade.


Mas só eu tenho a chave do alçapão.


Carlos Domingos
( Prisão de Caxias, Outubro de 1972)









quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

BLOGUES A VISITAR

FELIZ ANO 2009

Fotografia de DOMINIQUE STOENESCO- Professor e Tradutor de Poesia

BOM ANO DE 2009


BLOGUES A VISITAR:



Vamos PARTICIPAR activamente
o perigo é o silêncio e consentir que nos esmaguem!

Cidadãos, Cidadãs, PORTUGAL
espera vossa participação e intervenção

só assim seremos um País
a caminho do Futuro e da Esperança

Participem! tudo depende da atenção que prestam ao que vos dizem, para que nunca mais se deixem enganar por falsas promessas.
Os detentores do dinheiro, apenas defendem os ricos,defendem os seus próprios interesses!
o Povo que Trabalha tem que defender-se contra os interesses deles, que nos bebem o sangue se puderem, desde que isso os enriqueça sempre mais. Os ricos nunca defenderam os pobres, e quem trabalha não quer nem precisa viver de esmolas. Quer viver dignamente de cabeça erguida e sem passar necessidades. hoje o povo de Portugal falta-lhe mesmo o essencial, pequenos salários frente a um euro que arruína o pequeno porta-moedas de quem trabalha. As rendas de casa, nem se lhes chega, a saúde é o que é, quem tem dinheiro procura os hospitais particulares, quem o não tem vai-se tratando como pode. Tudo isso tem que acabar! é preciso e urgente encontrar dirigentes para Portugal que defendam o trabalho e quem o produz!
Atentos, todos nós! não nos deixemos enganar nunca mais!
e nas próximas eleições votem em quem pensa nos verdadeiros interesses de Portugal e de seu Povo! ATENTOS! TODOS ATENTOS!

e visitem o Pierre em:

PIERROT LE FOU

Bem vindos ao blog do presente

http://rotlefou.blogspot.com/

E

http://home.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user

Marília Gonçalves

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Sou negra hindu pele vermelha



Sou negra hindu pele vermelha
árabe, persa asiática
morena, branca, amarela,
sou incolor, aquática...
Sou rude como montanha
sou macia como arminho
tomo qualquer forma estranha
de cada irmão que adivinho
Sou feita de ar e de sol
de luz, de sangue de vento,
tenho a voz dum rouxinol
a soltar-me o pensamento.
Sou mistura conseguida
do humano universal
fecundo fruto da vida
porque a vida é natural.


no dia em que todos sentirmos que o mesmo sangue nos vivifica, nautas do mesmo mundo, nem crenças nem credos, nem cores, terão, o negativo poder que têm tido através dos tempos
para a compreensão de que enfim seremos fratenos, e iguais até à diferença e ao direito de ser diferente
pelo fim de toda a ignorância e hipocrisia, meu grito de VIVA A AMIZADE ENTRE OS POVOS
VIVA A PAZ
porque a vida é natural.

Marília Gonçalves
para Reflectir

excerto de:

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sermao_de_santo_antonio_aos_peixes


Sermão de Santo António aos Peixes

de Pe. Antônio Vieira


IV

Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorunt plebem meam, ut cibum panis? «Cuidais, diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?» E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama maldade, como se não houvera outra no Mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.

A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.

Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos.

Assim foi; mas, se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também a eles. Este é o estilo da divina justiça tão antigo e manifesto, que até os Gentios o conheceram e celebraram:

Vos quibus rector maris, atque terrae

Ius dedit magnum necis, atque vitae;

Ponite inflatos, tumidosque vultus;

Quidquid a vobis minor extimescit,

Maior hoc vobis dominus minatur.

Notai, peixes, aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae: «Governador do mar e da terra»; para que não duvideis que o mesmo estilo que Deus guarda com homens na terra, observa também convosco no mar. Necessário é logo que olheis por vós e que não façais pouco caso da doutrina que vos deu o grande Doutor da Igreja Santo Ambrósio, quando, falando convosco, disse: Cave nedum alium insequeris, incidas in validiorem: «Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco para o comer, não se ache na boca do mais forte», que o engula a ele. Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu correndo atrás do bagre, como o cão após a lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão com quatro ordens de dentes, que o há-de engolir de um bocado. E o que com maior elegância vos disse também Santo Agostinho: Praedo minoris fit praeda maioris. Mas não bastam, peixes, estes exemplos para que acabe de se persuadir a vossa gula, que a mesma crueldade que usais com os pequenos tem já aparelhado o castigo na voracidade dos grandes?

Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vemos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de todo. Não vos bastam tantos inimigos de fora e tantos perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos são os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de vos pôr em cerco e fazer guerra por tantos modos?! Não vedes que contra vós se emalham e entralham as redes, contra vós se tecem as nassas, contra vós se torcem as linhas, contra vós se dobram e farpam os anzóis, contra vós as fisgas e os arpões? Não vedes que contra vós até as canas são lanças e as cortiças armas ofensivas? Não vos basta, pois, que tenhais tantos e tão armados inimigos de fora, senão que também vós de vossas portas a dentro o haveis de ser mais cruéis, perseguindo-vos com uma guerra mais que civil e comendo-vos uns aos outros? Cesse, cesse já, irmãos peixes, e tenha fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois vos chamei e sois irmãos, lembrai-vos das obrigações deste nome. Não estáveis vós muito quietos, muito pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos, quando vos pregava Santo António? Pois continuai assim, e sereis felizes.

Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes outro modo de vos sustentar. E de que se sustentam entre vós muitos que não comem os outros? O mar é muito largo, muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos outros é voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza. Os da terra e do ar, que hoje se comem, no princípio do Mundo não se comiam, sendo assim conveniente e necessário para que as espécies se multiplicassem. O mesmo foi (ainda mais claramente) depois do dilúvio, porque, tendo escapado somente dois de cada espécie, mal se podiam conservar, se se comessem. E finalmente no tempo do mesmo dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na arca, o lobo estava vendo o cordeiro, o gavião a perdiz, o leão o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se acaso lá tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se acomodaram com a ração do paiol comum que Noé lhes repartia. Pois se os animais dos outros elementos mais cálidos foram capazes desta temperança, porque o não serão os da água? Enfim, se eles em tantas ocasiões, pelo desejo natural da própria conservação e aumento, fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós também; ou fazei a virtude sem necessidade e será maior virtude.

Outra cousa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto me lastima em muitos de vós é aquela tão notável ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?

Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá um exército batalha contra outro exército, metem-se os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas, e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isco na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis. ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois que sucede? O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.

Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão, ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos, nem esta ambição de hábitos.

Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignoradamente. Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não têm gasto; e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra, com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou os que querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano, e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça, ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras, nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios, nem as tapeçarias, nem as pinturas nem as baixelas, nem as jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.

Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação de se vestir; vós, a quem Deus vestiu do pé até à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas cores, ou de escamas prateadas e doiradas, vestidos que nunca se rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com as modas; não é maior ignorância e maior cegueira deixardes-vos enganar ou deixardes-vos tomar pelo beiço com duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco o pode enganar o Mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda. Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só estes se não enganaram e foram sisudos.

V

Descendo ao particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós. E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira. É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?! Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais. Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não é regra geral; mas é regra geral que Deus não quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército inteiro de soldados romanos; e se Cristo lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco. Contudo, que lhe sucedeu naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado Pedro que, se todos fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário, que só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar. Antes disso já tinha fraqueado na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no horto que vigiasse, e vindo de aí a pouco a ver se o fazia, achou-o dormindo com tal descuido, que não só o acordou do sono, senão também do que tinha blasonado: Sic non potuisti una hora vigilare mecum? Vós, Pedro, sois o valente que havíeis de morrer por mim, «e não pudestes uma hora vigiar comigo»? Pouco há, tanto roncar, e agora tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar, nem roncar.

Se as baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas baleias não seria essa arrogância segura. O que é a baleia entre os peixes, era o gigante Golias entre os homens. Se o rio Jordão e o mar de Tiberíades têm comunicação com o Oceano, como devem ter, pois dele manam todos, bem deveis de saber que este gigante era a ronca dos Filisteus. Quarenta dias contínuos esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel, sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo, que fim teve toda aquela arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda, para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com Deus; e quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a Santo António. Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifás roncava de saber: Vos nescitis quidquam. Pilatos roncava de poder: Nescis quia potestatem habeo? E ambos contra Cristo. Mas o fiel servo de Cristo, António, tendo tanto saber, como já vos disse, e tanto poder, como vós mesmos experimentastes, ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais blasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho brado.

Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados. que jamais os desferram. De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe aos leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores, tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso e mais a fome.

Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam os peixes do alto, depois que os nossos Portugueses o navegaram; porque não parte vice-rei ou governador para as Conquistas, que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam a eles, para que cá lhes matem a fome, de que lá não tinham remédio. Os menos ignorantes, desenganados da experiência, despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes a suceder no fim o que aos pegadores do mar.

Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos; enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.

Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser apóstolo pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o Evangelista, apareceu o Anjo a José no Egipto, e disse-lhe que já se podia tornar para a pátria, porque «eram mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino»: Defuncti sunt enim qui quaerebant animam Pueri. Os que queriam tirar a vida a Cristo menino, eram Herodes e todos os seus, toda a sua família, todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna. Pois é possível que todos estes morressem juntamente com Herodes?! Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant animam Pueri.

Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós, nem seguem, como deveram, o de Santo António.

Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est. Peguem-se outros aos grandes da terra, que «eu só me quero pegar a Deus». Assim o fez também Santo António; e senão, olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois é ali o pegador: e parece que é Cristo, porque o menor é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão pequenino, para se pegar a António. Mas António também se fez menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue, que todos os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão de morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que ainda no caso em que Deus se fez homem e morreu, só morreu para que não morressem todos os que se pegassem a ele: Si ego me quaeritis, sinite hos abire. «Se me buscais a mim, deixai ir a estes.» E posto que deste modo só se podem pegar os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor, que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e uns e outros se sustentavam de seus frutos: mas também diz que, tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com eles.

Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram àquele peixe grande, e porquê. O tubarão morreu porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode haver maior ignorância que morrer pela fome e boca alheia? Que morra o tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas que morra o pegador pelo que não comeu, é a maior desgraça que se pode imaginar! Não cuidei que também nos peixes havia pecado original. Nós os homens, fomos tão desgraçados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça! Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância com quanta água tem o mar.

domingo, 13 de abril de 2008



Poema em resposta ao Alerta dos Homens de Abril


Monstro















O Monstro


Que voz o silêncio em eco levanta
Tremenda feroz gelada sombria
Que nos fecha a mão
nos cala a garganta
E torna a manha gélida,
mais fria
Que vozes de túmulo
Há tanto caladas
Levantam ao cúmulo
O pavor dos dias
E tornam opacas
As brandas paisagens
E tornam as noites tredas
E vazias
Quem anda por dentro
Dos sonhos que temos
Semeando algemas
Que são dessa cor
Em que se amalgamam
Os prantos as penas
Nesse sofrimento
cada vez maior
Em nome de quem
Que monstro severo
Traz em seu sudário
De horrendo luzir
As asas cortadas
Do loiro canário
Que livre pelos ares
Ouvíamos rir
Quem é que nos chega
do mundo dos mortos
com baba de réptil
colando-se em nós
e faz sementeira
no solo que fértil
construímos limpo
sem peias nem pós


na ronda dos dias o povo
cantava
cantando bailava
bailando não via
que o monstro rasteiro
pelos ares espalhava
essa pestilência
de que ele vivia


enquanto a manhã
não amadurar
a luz que se infiltra
nos olhos ao fundo
o monstro escondido
ainda tentará
cobrir de seu bafo
o tempo perdido
e calar o Mundo.


Marília Gonçalves






Quando Morrer Voltarei Para Buscar Os Instantes Que Não Vivi Junto do Mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen